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Quando o hobby vira obrigação

IF

Assistir a um filme é uma experiência. Em diversos níveis. Não apenas a obra inicia com a obrigação de envolver. Na grande maioria das vezes, por empatia com algum personagem. Em alguns diferentes, é a beleza introspectiva. Em outros, o mistério e as reviravoltas. A fantasia (é preciso lembrar que toda obra de ficção não é realista) permite esquecer do mundo, em casos de entretenimento, ou pensar nele de forma diferente, em caso de obras reflexivas. É bom, mas tudo em excesso é demais.

Um dos melhores críticos de cinema do Brasil, senão o melhor, diz que assiste a pelo menos dois filmes por dia. Normalmente é um inédito e outro que já viu antes. A proposta parece absurda. Não apenas por questão de tempo, mas de vontade também. O amor pela arte ainda é real, mas com alguma frequência aparecem obras no caminho em momentos inusitados. Às vezes se quer ver apenas algo divertido e o que se apresenta é A Árvore da Vida, com duas horas e vinte de filme, nada de estrutura de roteiro e imagens contemplativas a dar com o pau. Daí volta à memória aquele livro envolvente ou aquela tarefa atrasada.

Pior ainda quando se é crítico de cinema. A função exige que, com alguma frequência semanal, a pessoa se arrisque em sessões quase desconhecidas. Um ator reconhecível aqui ou uma proposta interessante ali não é o suficiente para ter certeza de nada. Às vezes uma obra-prima floresce. Às vezes é preciso que os críticos se unam para dividir o bom humor e aguentar a projeção terrível que se desenrola. Às vezes não há ninguém por perto para compartilhar um filme chato que faz com que o tempo pareça passar mais devagar.

O horror.

Nada pior que o dia em que o crítico assistiu a Amor e O Som ao Redor logo em seguida. Dois grandes filmes, sim. Mas filmes pesados, com a intenção de fazer o espectador se sentir mal. Somados a um ar condicionado exagerado e à falta de roupas de frio, o resultado foram doença e mal-estar. Densidade dramática pode gerar resultados positivos, mas também cansa.

O professor da matéria de vídeos antropológicos disse uma vez que sempre que vai à locadora aluga dois filmes, “Para cada Goddard novo que nem sabia que existia, eu pego um filme do Bruce Willis”. É preciso desapego, assim como reflexão. É claro que, como filmes divertidos são o que são, entretenimento se adequa a mais momentos que outros.

Na dúvida entre o que assistir ou entre assistir ou fazer outra coisa, vem a culpa. Aquele outro grande crítico brasileiro diz com a boca cheia de razões (algumas lógicas e outras apenas pessoais), “Só ver filme não é o bastante para entender cinema”. É preciso ir atrás das grandes obras. É preciso ver Nouvelle Vague, Neo-Realismo Italiano, Expressionismo Alemão, Cinema Novo, Dogma 95, surrealismo”. É preciso mais, até. Tem que entender qual a diferença de linguagem de cada em cada contexto individual. Então o crítico se lembra que ainda não viu nada do neo-realismo. E a busca pelos filmes, somada à noção prévia de que os atores são todos amadores e que há brincadeiras com a linguagem causa uma preguiça. Então é preciso tirar coragem de onde não tem pra fazer mais uma vez.

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O cinema começou como hobby devido à paixão. A partir do momento em que o estudo e o trabalho o tornaram obrigação, o amor continua a existir, mas deixou de ser hobby. Outras artes mais acessíveis, rápidas e sem obrigatoriedade acabam por ganhar o status. Ler, ouvir, jogar. Qualquer coisa que permita escapar da obrigação, por mais que esta seja prazerosa. Principalmente porque, mesmo que seja ótima, tudo em excesso é demais.

GERÔNIMOOOOO…

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