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Cegos, Surdos e Loucos

See-No-Evil-Hear-No-Evil

Cegos, Surdos e Loucos era um dos filmes que eu mais assistia quando criança. Adorava a dupla Gene Wilder e Richard Pryor. Juntos, eles fizeram quatro comédias e eram dois dos mais famosos astros da época. Tanto que Pryor chegou a roubar um filme inteiro do Superman (o terceiro com o Christopher Reeve). Qual foi a felicidade de descobrir que os dois ainda são donos de um ótimo humor?

Wallace (Richard Pryor) é um homem cego que trabalha em uma banca de jornal junto de Dave (Gene Wilder), que é surdo. Um assassinato é cometido diante da venda. Wallace ouviu o tiro e sentiu o cheiro da assassina, Dave viu apenas um belo par de pernas ir embora. Os dois são considerados culpados e precisam fugir tanto da polícia quanto dos bandidos para se livrar da prisão.

Tem-se aí a chave para um monte de situações cômicas e divertidas. Wilder era famoso por fazer o tipo simpático e gentil que escondia lados sombrios. Pryor era desbocado e fazia caretas enquanto xingava com sarcasmo tudo o que acontecia. O contraste de estilo dos dois cria um ritmo interessante. Somado às centenas de piadas sobre cegueira e surdez, a comédia está garantida.

21_seenoevilhearnoevil_stills_10O que acontece quando se coloca um cego para dirigir.

Escrito a dez mãos, o roteiro faz um bom trabalho em apresentar os dois individualmente em uma única cena. Wallace e Dave sofrem de complexo de inferioridade por conta das condições físicas. Wallace finge para o mundo que enxerga bem porque acha que as pessoas têm pena de cegos. Dave é calado e aceita uma vida de solidão. À medida em que se confrontam e se ajudam para superar os problemas, um força o outro a superar os complexos. A estrutura brinca muito bem com a cegueira e a surdez. Em um ponto, Wallace faz xixi longe enquanto Dave faz vigília em cima de um carro. O automóvel faz barulho para indicar que o freio está solto. Dave não escuta e desce um morro sem saber porquê. Wallace, desesperado, se arrasta no chão para encontrar com o tato o amigo que sofreu o acidente.

Se existe uma crítica negativa, ela provavelmente se encontra na incômoda cena na qual Dave abusa da assassina quando a rende nua em um hotel. Por mais que ela tenha feito algo parecido com ele antes e os dois assumam que sentem atração mútua, não há desculpa para o cara mais legal fazer algo do tipo. Outro problema são os personagens caricatos. O chefe de polícia que é quase um pateta e os vilões com jeitos britânicos debochados.

O diretor Arthur Hiller sabe filmar as gags bem. Coloca os elementos que os dois são incapazes de perceber em segundo plano enquanto eles não sabem o que acontece ao redor. Na melhor gag, Dave é chamado de idiota por um motorista e, de costas para Wallace, xinga o homem de volta. Wallace, cego, não sabe que o xingamento não é para ele e tenta começar briga, mas Dave não sabe das ações de Wallace porque é surdo e está de costas. Tudo com pouquíssimos planos e cortes. Hiller também dominava a arte de usar o recorte do cinema para o VHS para colocar conteúdos pesados no cinema e as mesmas cenas se manterem na versão censurada para home video e TV. As duas cenas de nudez colocam o seio da mulher nos cantos da tela enquanto a situação principal se passa no outro lado do enquadramento. Quando o widescreen era reduzido para fullscreen, a nudez desaparecia.

5485_5Sim. Aquele é o Frank Underwood. Vilões estereotipados.

Wilder usa o estilo pessoal dele para dar um nível de adorabilidade para Dave enquanto Pryor xinga a torto e a direito. A química surge porque um é crítico do outro, mas respeita e cresce junto. Além dos dois, há a participação de um jovem e bizarro Kevin Spacey, como um vilão estereotipado, ele não consegue dar vida ao papel sem sentido que interpreta.

É uma boa comédia para assistir rápidamente. Em comparação com comédias atuais, é ainda melhor. O gênero sofre com a ideia de que não é preciso ser bom diretor para fazer humor. Creio que Arthur Hiller, Gene Wilder e outros da época discordariam fortemente.

 

GERÔNIMOOOOOOO…

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