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Épico? Anna Karenina

kinopoisk.ru
Tá escrito ali na imagem de divulgação. “Uma épica história de amor”. Esse troço tem que se encaixar nesta coluna, mesmo que a suntuosidade que Joe Wright constrói seja para criticar as características de grandiosidade da Rússia do século 19. Para falar a verdade, a crítica é do Tolstói, mas Wright a reproduz com engenhosidade.

O livro original servia para dois tipos de questionamentos. Um social, no qual compara a caos urbano com a beleza bucólica. E o outro relacionado ao amor idealizado e às suas prioridades. Wright faz com que os personagens principais sejam um casal de pessoas atraentes, mas também faz deles os vilões. Tanto Anna quanto seu amante são a representação da vida urbana e egoísta, enquanto o marido traído é o ideal de político virtuoso e o tímido e esquisito primo do interior é o ideal de homem justo e trabalhador.
É tudo muito interessante e válido, mas mais adequado para a Rússia do século 19 que para o mundo ocidentalizado em que vivemos. Principalmente em épocas de raciocínios sobre cidades do futuro. Seja como for, a escolha de Wright de adaptar justamente este livro para o cinema já revela bastante sobre a forma como o diretor pensa o mundo.
Mas o que realmente faz com que este filme seja digno de nota é como Wright constrói este mundo. A Rússia do filme existe através de um teatro. A classe rica desfila entre os acentos da plateia e o próprio palco, os pobres ficam por trás dos panos, trabalhando constantemente para sustentar a vida dos mais favorecidos. Sempre que a história vai para o interior, as portas do teatro são abertas e pela primeira vez os enquadramentos são de cenários abertos, com visão do céu e grandes campos.
Entre tudo isso, Wright usou de visuais estonteantes através da rica direção de arte que enche os cenários e os figurinos de suntuosidade. Para fazê-lo, gastou aproximadamente 51 milhões de dólares. Em termos de grandes produções de Hollywood não é muita coisa, mas infelizmente não rendeu muito, lucrando apenas 68 milhões, o que provavelmente não pagou nem os custos de distribuição.
O orçamento garantiu qualidade?
A discussão original de Tolstói é maior que a direção de arte ou a capacidade de direção de Wright. Faz com que o uso do orçamento beire a superficialidade. Não fosse o grande diretor que é, todo o esforço de Wright para construir a linguagem do filme passaria em branco. Essa provavelmente foi a mais difícil que já respondi, mas acredito que sim. Garantiu qualidade, mas não o diferencial para a discussão proposta.
 
GERÔNIMOOOOOOO…

1 comentário em “Épico? Anna Karenina

  1. O que acho sensacional no Anna Karenina de Joe Wright é a exagerada teatralidade de sua narrativa. É um musical sem canções, tamanha é a ritmicidade presente em cada atitude de suas personagens. Até em referências visuais o diretor deixa clara a lembrança do palco, da execução de uma dramatização teatral, utilizando-se de outra mídia. Tudo parece tornar-se mais artificial por este aspecto, mas creio que seja justamente a proposta – expor toda a artificialidade intrínseca à vida daquelas personagens, desde o menor ato destas.
    Abraço e até a próxima.

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