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Uma Aventura no Espaço e Tempo

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Eu ia separar este post para a sessão sobre Doctor Who. Mas o filme (pode ser para a TV, mas é um filme) Uma Aventura no Espaço e Tempo não faz parte da franquia, é uma dramatização da criação da série na década se 1960 e é uma obra muito bonita que não precisa de conhecimento em relação ao seriado para ser apreciada.

O filme acompanha dois focos principais, a produção por parte de Verity Lambert e o ciclo do ator William Hartnell como o primeiro Doutor. Ela precisou lidar com o sexismo ao assumir a liderança em uma produção na BBC e ele precisou lidar com suas limitações com a idade ao protagonizar uma série de TV.

Antes de mais nada, o roteirista desse troço é o Mark Gatiss, que roteiriza Doctor Who de vez em quando (episódios fracos, sempre) e co-criador de Sherlock (onde faz um bom trabalho). Gatiss teve uma tarefa difícil. O foco principal é em Hartnell, mas é preciso dar algum espaço para que Lambert possa ser retratada. O fato de que a produtora saiu do programa antes de Hartnell cria um pequeno desequilíbrio no ritmo.

Verity não tem o respeito nem a atenção de ninguém dos estúdios. Seus sets são precários, o diretor que passam para ela é inexperiente e também precisa enfrentar preconceitos por ser indiano. Ela lida com cada pequeno problema com elegância em cenas muito interessantes como a parte na qual consegue fazer com que um designer crie o interior de um dos cenários.

A parceria de Lambert com o diretor Waris Hussein foi repetida diversas vezes, principalmente porque os dois possuem interesse pelo mesmo sexo e compreendem as dificuldades um do outro. O filme retrata essa química muito bem. Em parte pelo texto bem escrito de Gatiss, mas principalmente pelas interpretações de Jessica Raine (dona de uma beleza hipnotizante) e de Sasha Dhawan.

Waris e Verity. Enfrentando preconceitos e dificuldades com elegância.
Waris e Verity. Enfrentando preconceitos e dificuldades com elegância.

O outro enredo do filme fica por conta da pessoa de Hartnell. Ator veterano, ficou em dúvida quanto a interpretar um Doutor sem nome de um programa infantil. O filme acerta em focar nas dificuldades de um ator em se manter relevante. Imagine ser idoso, querer fazer arte e ser lembrado constantemente por papéis de militares severos. Não é a toa que o ator virou uma pessoa tão dura e difícil de conviver.

Também deve-se dar os méritos ao David Bradley, mais conhecido por suas participações como Argo Filtch em Harry Potter. Ele consegue criar essa camada de antipatia do personagem sem perder a humanidade escondida ali atrás.

Com o sucesso da série e do personagem, Hartnell finalmente encontra o prazer do reconhecimento por sua arte. Mas seu cérebro está aos poucos deteriorando, limitando mais e mais sua capacidade de interpretação.

Surge um drama muito bonito sobre seguir adiante e aceitar mudanças. Com direito a duas cenas maravilhosas, uma das quais Hartnell não consegue manter a postura e deixa todo o peso do que está acontecendo ser expressado. A outra cena é específica para fãs da série e é de partir o coração.

A direção sabe criar os momentos divertidos com rapidez e estilização, ao mesmo tempo em que se deixa demorar nos dramas pessoais. Principalmente dando destaque para que David Bradley interprete. O que mais incomodou foi uma constante reprodução do prédio da BBC com grandes angulares porque o prédio é redondo. Fica repetitivo e às vezes estraga a mise-en-scène. Mas é preciso reconhecer, aquele prédio é muito fotogênico.

Tirando a pequena cena referencial à série, Uma Aventura no Espaço e Tempo pode ser visto tranquilamente por qualquer pessoa, mesmo as que não gostam de Doctor Who.

 

ALLONS-YYYYYYYYYY…

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